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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sudão: Será o reinício do conflito mais sangrento depois da Segunda Guerra Mundial?


No início de outubro deste ano (2010), o astro de Hollywood George Clooney passou uma semana no maior país da África, o Sudão, visitando a região do sul e conversando com líderes locais. Ao voltar para os Estados Unidos, o ator dialogou com políticos americanos, entre eles o presidente Barack Obama. Seu recado era claro. “Estávamos atrasados no Congo, estávamos atrasados em Ruanda, estávamos atrasados em Darfur. Essa é uma oportunidade para evitar o massacre antes que ele ocorra”, disse o galã. O temor de Clooney, e de boa parte da comunidade internacional, é que o resultado do referendo programado para 9 de janeiro de 2011, no qual o sul do Sudão pode conseguir a secessão do norte, provoque a retomada de uma guerra civil que tem o nada nobre posto de maior matança desde a Segunda Guerra Mundial.
O medo da guerra é provocado por uma equação simples. O governo central, baseado em Cartum, a capital do Sudão, não quer a separação. Enquanto isso, há uma clara indicação de que os sudaneses do sul vão votar pela separação. A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, cuja função exige parcimônia nas palavras, declarou em setembro ser “inevitável” a separação, e chamou o Sudão de “bomba-relógio”. Por trás do movimento separatista está o medo dos habitantes do sul, majoritariamente negros, cristãos e animistas, de permanecerem como cidadãos de segunda classe diante do norte, de maioria árabe e muçulmana. A dominação política, econômica e social do norte gerou a primeira guerra civil do Sudão, entre 1955 – um ano antes da independência da Inglaterra – e 1972. Dez anos de armistício acabaram em 1983, quando Cartum decidiu rever o acordo de paz e implantar a sharia – a lei islâmica – em todo o território. A revolta separatista do sul foi contida com violência, e o número estimado de mortes passa de dois milhões. Os refugiados seriam quatro milhões. A frágil paz que vigora hoje é baseada no Acordo de Paz Abrangente (CPA, na sigla em inglês), assinado em 2005, que deu autonomia ao sul por cinco anos e programou o referendo para janeiro.
O comportamento do governo de Cartum, chefiado por Omar al-Bashir, é o principal fator de preocupação. Bashir, que chegou ao poder em um golpe militar aplicado em 1989 com a ajuda de grupos islâmicos fundamentalistas, tem contra si um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional, órgão da ONU, por conta de crimes de guerra e contra a humanidade. As sete acusações dizem respeito ao conflito de Darfur, uma região do tamanho da França no oeste do Sudão, cujos líderes também pegaram em armas para lutar contra a opressão árabe. Outro motivo que torna Bashir alvo de desconfiança da comunidade internacional é sua aliança com o Irã. Nos últimos anos, o Sudão teria se tornado um distribuidor de terrorismo, abrindo espaço para treinamentos do Hamas e servindo de base para o tráfico de armas para extremistas na Somália, no Iêmen, no Líbano e nos territórios palestinos ocupados. Uma denúncia recente feita pela oposição diz que o Irã teria uma fábrica de armas na periferia de Cartum. Verdadeira ou não a acusação, é fato conhecido que, no início de 2009, a Força Aérea de Israel fez três ataques em território sudanês a veículos que levavam armas iranianas para o Hamas.
“Pelo histórico do Sudão, é bastante difícil acreditar, primeiro, que o referendo vai ocorrer na data e, segundo, que o desfecho se dará sem violência”, diz Claudio Oliveira Ribeiro, especialista em África da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “A população não tem o hábito do voto, da escolha, e a militarização e a guerra são as práticas normais no Sudão”, diz.

A disputa pelo petróleo do Sudão
O ceticismo de Ribeiro encontra base em fatos recentes ocorridos no país. O acordo de paz de 2005 prevê que a região de Abyei, na divisa entre o norte e o sul, realize um referendo especial para decidir com qual dos lados ficará. Nesta semana, as autoridades sudanesas confirmaram que a consulta à população de Abyei está adiada por tempo indeterminado. Uma comissão de referendo ainda não foi formada e não há acordo nem sobre qual parte da população deve votar. Em dois outros Estados da divisa – Nilo Azul e Cordofão do Sul – consultas populares sem valor de referendo estavam previstas no acordo de paz, mas elas não vão ocorrer. Como as populações de ambos são majoritariamente ligadas ao sul, elas temem ser alvos de ataques uma vez que o sul se separe. Ribeiro lembra ainda que o presidente Omar al-Bashir vem dando “sinais confusos” sobre qual será sua postura diante do resultado do referendo e que as tensões têm crescido na região. Em 14 de novembro e 8 de dezembro de 2010, Cartum bombardeou o território do sul. Na primeira oportunidade, o governo disse que errou o alvo ao perseguir rebeldes de Darfur. Depois, negou o ataque.
Fonte: Época

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